Anda difícil acompanhar a agenda de Cacá Diegues. Há
15 dias, o cineasta começou a gravar depoimentos para um documentário
sobre os últimos 20 anos do cinema brasileiro, provisoriamente
intitulado ’20′. “Já fiz 33 entrevistas, desde Nelson Pereira dos Santos, passando por Walter Salles — fiz as tomadas na Central do Brasil, claro —, Claudio Assis, Fernando Meirelles
e Daniel Filho”, afirma ele, rápido no gatilho, à nossa Época desta
semana. Aos 72 anos, Cacá adianta outra novidade, a produção de ‘Favela
Gay’, mais um filme da série 5X (Favela, Agora por Nós Mesmos e
Pacificação), sobre a homossexualidade nas comunidades.
Qual o ponto de partida do documentário sobre o cinema brasileiro?
A década de 90, que foi um período de grave crise
financeira no país e de altíssima inflação. A produção de cinema no
Brasil caiu dramaticamente e fazer um filme se tornou um ato de
heroísmo.O governo Collor confiscou toda a reserva particular e
extinguiu a Embrafilmes, o Concine, a Fundação do Cinema Brasileiro, o
Ministério da Cultura e suas leis de incentivos. Era praticamente
impossível fazer cinema. Pego depoimentos dos cineastas que faziam de
tudo para realizar um projeto. Com a saída de Collor e a entrada de FHC,
o cinema voltou às produções com a Lei do Audiovisual. Foi quando
começamos a falar na ‘retomada”.
E como vê a situação atual?
As escolas de cinema são boas, temos uma TV muito poderosa e uma
indústria de publicidade que prepara bem os lançamentos. Estamos num
momento maravilhoso, com até 20 estreias num curto período de tempo, mas
claro, nem toda são ótimas. O que falta é os incentivadores
compreenderem que precisamos de infra-estrutura e não de favores
eventuais. Queremos salas grandes, presença na TV e na Internet. Evito
usar o termo ‘indústria’ porque nossa economia é frágil e não está
consolidada. A ‘farra’ pode acabar de uma hora para outra. Mas, agora,
acredito que temos um ás na manga: a ministra da Cultura Marta Suplicy.
Pela primeira vez temos alguém com poder político no governo e, se ela
for no rumo certo, estaremos bem.
Você está no ‘mercado’ desde a criação do Cinema Novo, na década de 60. Como se renova?
Gosto de cinema e de vê-lo progredindo. Sou cineasta 24 horas, sete
dias na semana e, vez ou outra, pego uma câmera e faço um filme.
Procurar novidades me rejuvenesce. 5 x Favela, Agora Por Nós Mesmos foi
uma maneira de conhecer essa evolução, essa geração que existe hoje na
cultura e no cinema brasileiro. Não poderia deixar passar em branco
esses meninos com tantas ideias novas. Meu papel foi derrubar esse muro
que existe entre o asfalto e a favela. Desde os anos 90, faço projeção
de filmes em ONGs como a CUFA, o AfroReggae e o Nós do Morro, e descobri
a primeira geração de cineastas moradores de comunidades.
E como será a continuação da série 5X?
O Rodrigo Felha (um dos diretores descoberto pela CUFA) me propôs um
projeto de uma originalidade fantástica: fazer o terceiro filme da série
com o tema ‘Favela gay’. Já batemos o martelo e vamos começar a gravar
no início do próximo ano. Queremos retratar a vida dos gays que vivem
nos morros, mas homofobia existe em todo lugar.
Fonte: Revista Época

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